Por André Assi Barreto,

Muitos já devem ter visto o vídeo feito por Ben Shapiro intitulado “O Mito da Minoria Radical Muçulmana”. No vídeo, o ativista conservador Ben Shapiro traz alguns dados mostrando que mesmo em países muçulmanos considerados “moderados” uma considerável parcela da população sustenta posições radicais, genericamente em forma de adesão à lei da sharia e especificamente como favoráveis ao apedrejamento de mulheres adúlteras, punições físicas ou morte para homossexuais e apóstatas, tratar praticantes de outras religiões como cidadãos de segunda classe, apoio moral a atendados terroristas  etc. Com variações de país a país, as parcelas menores de apoio a estas causas chegam a 20% e as maiores ficam entre 70 e 80%.

            O site apologético muçulmano IQARA Islam decidiu fazer um check fact em relação ao check fact de Shapiro. Confesso que não achei a resposta das melhores. O que eles fazem basicamente não é mostrar que existem dados que revelem a parcimônia e moderação dos muçulmanos, mas que alguns pressupostos de Shapiro estariam errados, como, por exemplo, o que realmente significa o apoio à sharia. Afirmam eles que alguns muçulmanos apoiam a sharia, mas que ela seja aplicada apenas a muçulmanos. Afirmação que muito me estranha, pois desde seu nascimento o islã é uma religião cujos adeptos nunca hesitaram em usar o fio da espada para converter todos os não-muçulmanos em muçulmanos. E muitos outros interpretam a jihad como um chamado espiritual para a conversão de infiéis ao maometanismo.

O que é a sharia?

            A sharia é o código jurídico do islamismo. Mentes cristãs e ocidentais podem considerar isso estranho, particularmente porque o cristianismo nunca derivou de sua moralidade um código jurídico e, razoavelmente, dito a muito grosso modo, sempre admitiu alguma distinção entre vida espiritual e vida civil, mas conceber essa separação no islã é simplesmente como conceber um círculo quadrado (o livro O Islão Político, do historiador do islã Bem Lewis é uma boa fonte inicial para aprofundamentos nessa discussão)[i].

            Embora a Constituição Americana tenha forte inspiração cristã, afirme que os direitos garantidos por ela foram dados por Deus a todos os seres humanos[ii], ela jamais poderia ser compreendida como a “sharia cristã”, até mesmo porque espera-se que o que ali está escrito seja cumprido e respeitado por não cristãos e por mais derivada que seja de ensinamentos cristãos com fundamento bíblico, certamente não é um documento que seria adotado como código jurídico por todos os mais de 2 bilhões de cristãos do mundo e que esse montante de pessoas estaria disposta a matar ou morrer para que suas verdades sejam incutidas em não-cristãos. E verdade seja dita, um documento como esse simplesmente não existe na história do cristianismo.

Islã, vale lembrar, significa submissão. E disso não decorre uma mera submissão espiritual às regras espirituais oferecidas pelo profeta Maomé, mas submissão de todas as esferas da vida, inclusive a esfera civil, às leis islâmicas. Falar em “estado laico” para um muçulmano de inteligência média (que desconheça o conceito ocidental) será, para ele, literalmente, uma contradição em termos. Claro que o artigo do site apologético afirma que existem concepções distintas dentro do universo muçulmano sobre as regras que compõem a sharia. Mas creio que isso signifique um ponto em favor dos radicais e não o contrário. Afinal, nas ausências de um consenso e da palavra de uma autoridade que possa ser considerada absoluta sobre o assunto, por que a interpretação dos radicais estaria errada? (problema para o qual chamei a atenção quando escrevi sobre a condenação do Estado Islâmico por parte das “autoridades” muçulmanas).

Tomemos, por exemplo, a controvérsia envolvendo o ex-candidato republicano à presidência, o médico cirurgião Ben Carson, quando afirmou que não é possível crer na sharia e ser um americano patriota e, portanto, presidente da república (que acredita na Constituição Americana como texto jurídico basilar e primordial). As elites liberais ficaram furiosas e foram à loucura com a declaração. Hillary Clinton, então candidata democrata, na esteira de Barack Obama e do republicano George Bush, emplacava a cantilena de que o islã é uma “religião da paz”.

            Portanto, nem a doutrina política do islã e tampouco sua doutrina jurídica, a despeito de quaisquer querelas entre as supostas “autoridades”, podem ser separadas do islã em si mesmo. De forma que a objeção do site apologético não faz qualquer sentido para mim. As interpretações radicais são tão legítimas quanto as “pacíficas”, de maneira que a adesão à sharia é sim um critério razoável para se medir o radicalismo de seus adeptos.

O que é uma “minoria”, afinal de contas?

            Me parece que boa parte dessa controvérsia gira em torno do que é uma minoria. E julgo que a importância disso é superestimada.

            O número significaria 16 milhões de radicais à solta. Se distribuídos igualitariamente pelas 49 teocracias islâmicas existentes, são cerca de 330.000 radicais para cada nação islâmica. São estimativas conservadoras, mas não vejo porque seriam menos preocupantes, visto que um homem-bomba é capaz de fazer estragos colossais. De forma que, a discussão sobre quão minoritária é a minoria de radicais é menos importante do que parece.

As pesquisas apontam que existem 1,6 bilhão de muçulmanos no mundo. Para fins de puro exercício mental, suponha-se que 1% desse universo seja composto por radicais, incluindo martírio jihadista, assassinato de infiéis e o restante do pacote. Ou seja, podemos até abandonar as estimativas de Shapiro, a verdade de um eventual radicalismo da comunidade muçulmana nem de longe depende inteiramente da precisão dos números da análise de Shapiro, para infelicidade dos analistas do site apologético. Trabalhemos momentaneamente com esse número da nossa estimativa conservadora.

            Para colocar a hipótese em perspectiva, trago um outro experimento mental que criei no texto “Uma imagem contra a política de refugiados da Europa”. Suponha-se um pote cheio do confeito “M&Ms”, onde 999 deles são inocentes guloseimas de chocolate e 1 está mortalmente envenenado. Você comeria os doces calmamente? Ofereceria o pote a seu filho? Isso relativiza consideravelmente a discussão sobre a importância de se tratar ou não de uma “minoria” de radicais; mesmo que se trate de 1%, não torna a situação menos problemática ou preocupante.

            Ademais, problemas sociais em geral são sempre causados por minorias. Mesmo em um dos países mais violentos do mundo como o Brasil, com cerca de 60.000 homicídios por ano e números de violência crescentes, todos não concordamos que dos nossos 200 milhões de habitantes, apenas uma considerável minoria é de homicidas reais ou potenciais? Isso faz de alguma maneira o problema menos grave ou importante? Honestamente, creio que não. Sempre é, em algum sentido, uma “minoria”.

O problema é o islã?

            Muitos islamofílicos, oriundos das elites falantes “progressistas”, alegarão que também há “radicalismo cristão” e que o terrorismo “nacionalista” é numericamente mais efetivo que o radicalismo islâmico em países ocidentais.

            Contudo, não considero nada disso convincente. O radicalismo cristão, posto lado a lado com o islâmico, é uma farsa. Não há equiparação numérica, não há política cristã no mesmo sentido que há política islâmica e as autoridades cristãs – essas sim claras e legítimas (qualquer um que negue, por exemplo, a autoridade papal para o catolicismo nada entendeu de catolicismo) – são efetivas em condenar qualquer eventual caso de violência supostamente motivada por razões cristãs. Além, é claro, das leis ocidentais, usualmente laicas, considerarem atos de violência e terrorismo como crimes. E isso com bastante clareza, sem qualquer paralelo possível com uma “sharia cristã” concorrendo com as constituições dos países ocidentais.

            No que diz respeito à violência “nacionalista” ou “supremacista branca”, além de inflacionada por esquerdistas, nem de longe concorrem em número com os atentados islâmicos. Muitas vezes são apenas violência local e urbana, vendida como atentados políticos por radicais de esquerda a fim de alimentar suas narrativas políticas. Ademais, mesmo que houvesse equivalência numérica, por que importar mais problemas de alhures, já havendo número suficiente internamente?

            Fato é que apenas membros da religião de Maomé se dispõem a pegar em armas e abrir fogo contra jornalistas e cartunistas que fazem troça de sua fé (ativistas católicos processaram diversas vezes a Charlie Hebdo). Vocês conseguem imaginar “radicais cristãos” ou “radicais budistas” (eles até existem) sequestrando um avião e jogando-o contra algum símbolo político e econômico do mundo islâmico e ceifando vidas inocentes para transmitir uma mensagem política de ódio ao ocidente, à liberdade de expressão e à América? Qualquer leitor honesto sabe a resposta dessa pergunta. O radicalismo político islâmico, intelectualmente formado na aurora do século XX, é um problema distintivo do islã.

Uma palavra final: a teoria dos círculos concêntricos

            No debate entre Ben Affleck e o filósofo e neurocientista americano Sam Harris no programa do esquerdista Bill Maher, mencionado por Shapiro, este último usou a teoria dos círculos concêntricos para explicar o problema da relação entre terrorismo e islã.

Imaginem que toda a população islâmica está disposta em círculos, sendo o menor deles o de radicais (podemos tranquilamente trabalhar com a estimativa de 16 milhões a que chegamos acima). O círculo imediato é o dos intelectuais que fundamentam o radicalismo – o nome mais famoso talvez seja o de Sayyd Qtub, egípcio fundador da Irmandade Muçulmana – ou que são incapazes de usar sua posição de autoridade para condenar os atos. O círculo seguinte é o dos que relativizam a violência a cada novo atendado semanal que ocorre. O próximo é formado por pacíficos práticos e radicais teóricos, que não vão se explodir, mas também não vão fazer qualquer esforço condenatório dos atos de violência (um dos círculos mais numerosos) e até concordam com os atos, dando apoio moral, financeiro ou político aos radicais do círculo menor e que são a “maioria” mencionada por Shapiro em seu vídeo.

Esses são os círculos que importam. Há o dos que condenam e há até o dos que condenam e sequer são efetivamente praticantes do islã (seria interessante estimar a densidade desse círculo numa religião que significa “submissão”), mas por maiores que sejam, claramente não são eficientes em dirimir o problema interno do radicalismo.

            A teoria também ajuda a relativizar a importância da discussão sobre se se trata ou não de uma “minoria”. Mesmo que se trate de uma minoria numérica, é uma minoria que conta com algum tipo de fomento dos círculos mais externos, compostos gradativamente de um número maior de pessoas.

            É lugar-comum entre alguns intelectuais ocidentais falar que esses problemas que circundam o islã existem devido ao fato do maometanismo ainda não ter tido seu próprio iluminismo ou sua própria reforma. Me parece uma posição extremamente ingênua, tanto pelos fatos essenciais do islã que mencionamos ao longo do texto quanto pelo tratamento conferido pelas vozes mais ativas aos supostos reformadores do islã.


[i] Com a devida vênia, peço licença para os leitores para uma breve relativização histórica, que fugiria aos propósitos do artigo, mas precisa ser menciona a fim de evitar a confusão de crer que o mesmo apontamento que se faz aqui recai sobre o cristianismo, por exemplo.

Quem moldou politicamente, socialmente e, portanto, legalmente, a Europa até meados do fim do século XIX e até mesmo depois, incidentalmente, foi a Igreja, que era produtora das leis consuetudinárias que influenciaram todos os diplomas legais da atualidade, inclusive os positivistas e os jusnaturalistas.

Importante dizer também que muitos documentos, inclusive teses nacionais a respeito, presentes no site do Senado Federal, afirmam que o direito internacional atual teve sua origem em pressupostos e diretrizes dos textos canônicos e bíblicos. Sofreu ampla carga principalmente da doutrina exegética do Novo Testamento, que postula que todas as nações sejam governadas por Deus.

Inclusive, um dos maiores geopolíticos de toda a história e, podemos dizer, o precursor do sistema diplomático contemporâneo era um cardeal francês.
Trata-se do cardeal de Richelieu.


Apesar de ser considerada fonte suspeita (o que não endosso), por ser um dos propositores e fundadores dos planos globalistas, a leitura do livro Diplomacia, de Henry Kissinger, que é um dos melhores e maiores tratados sobre diplomacia que já li. Ele dá um retrato perfeito sobre as políticas do cardeal de Richelieu e suas influências diretas no modus operandi diplomático de uma figura como Bismarck, o maior diplomata do século XIX e um dos maiores da história.

Contudo, nada disso também pode ser considerado uma “sharia cristã” ou fundamento para uma teocracia cristã, como claramente observamos em praticamente todas as Constituições dos países ocidentais, inclusive aqueles que se admitem como cristãos em sua fundação.

[ii] O texto também contém profunda inspiração iluminista e foi redigido por autores que eram simplesmente deístas (crentes num deus arquiteto não-interventor nas questões humanas históricas).

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