Por André Assi Barreto[1]

Os intelectuais (que formam também o que convencionou-se chamar de “classe falante”[2]) têm dificuldade em admitir a existência do que não compreendem e do que não foram capazes de prever, ou seja, do que de alguma forma escapou de seu horizonte e controle. É o caso da palavra que ascendeu ao centro do debate público após a escolha do chanceler Ernesto Araújo para o Ministério das Relações Exteriores (MRE), que denuncia a ideologia em seus textos (blog do ministro: www.metapoliticabrasil.com).

Globalização é um termo que provavelmente todos conhecem e com o qual tiveram os ouvidos inundados durante a vida escolar (principalmente aqueles que, como eu, estiveram na escola durante os anos 1990 e 2000). Em termos econômicos, é uma consequência em nível internacional do capitalismo de livre mercado: o comércio entre nações distintas feito de maneira cada vez mais facilitada (menos taxas, tarifas etc.). Na era da informação e das redes sociais, o sentido se estende ao compartilhamento de informações em alta velocidade e em nível internacional – trânsito transfronteiriço de pessoas (o que na narrativa oficial dos livros didáticos era descrito como exportação de inteligências de elite para as metrópoles malvadas ou barateamento de salários, em caso de mão de obra braçal), de bens, de serviços etc. Quem sempre fez oposição à globalização nesse sentido foi a esquerda hard, pois segundo sua narrativa, era apenas uma versão repaginada do colonialismo imperialista: países ricos compram commodities dos países pobres de maneira facilitada, ao passo que países ricos vendem, depois, produtos finais, a preços muito mais elevados, naturalmente, levando vantagem e mantendo os primos pobres em sua condição de pobreza (não deveria surpreender, portanto, que uma ala considerável do Partido Trabalhista inglês tenha sido favorável ao Brexit).

Disso depreendemos duas coisas: surpreende que hoje, a fileira dos defensores da globalização (e do globalismo) seja engrossada pela esquerda soft; depois, que a nova divisão politica atual seja não entre esquerda e direita, mas entre globalistas e soberanistas, visto que há (ou houve) uma esquerda contra a globalização e hoje há uma a favor e também uma direita (grosso modo, liberal) a favor da globalização e também uma contra (“populista”, em sentido estrito). Para os mais assustadinhos, essa é a analise do historiador best-seller e mainstream Yuval Harari, na plataforma liberal e mainstream Ted Talks (“Nationalism vs globalism: the new political divide” | Yuval Noah Harari) rechaçando a hipótese de “teoria da conspiração” (palavra-gatilho para reduzir tudo que as elites falantes ignoram ou não compreendem).

Voltemos à definição: no parágrafo anterior aludiu-se à globalização como parte do globalismo. A primeira pode ser um fenômeno do segundo, que é uma ideologia (no sentido de um pacote mais completo de ideias). No globalismo, como nunca cansam de lembrar seus defensores, há livre transito de bens e serviços, mas há também uma marcha em direção a um governo global, que deixa de incluir apenas questões econômicas e traz no seu bojo questões políticas, jurídico-legais, de segurança nacional (imigração) etc., implementadas por entidades burocráticas fora das nações afetadas e por indivíduos não-eleitos pelas populações locais. Dois acontecimentos recentes que ilustram de maneira bem pouco velada tudo isso ocorreram recentemente: a vontade da chanceler alemã Angela Merkel (e seu escudeiro Emmanuel Macron) que o bloco (econômico?) tenha um exército próprio (para se proteger dos EUA? Da Rússia?), numa clara marcha de transformação da União Europeia nos Estados Unidos da Europa (sem qualquer conotação positiva aqui) – fato para o qual o eurocético Nigel Farage já alertava pelos idos de 2015 e era ridicularizado no parlamento europeu e, ainda, a vontade das Nações Unidas, expressa na palavra do deputado Marcel de Graaf, de tornar qualquer crítica à imigração um exemplo de discurso de ódio e, por consequência, criminalizado.

Foi por considerar que as coisas poderiam ir além do limite desejável que, por exemplo, o Reino Unido, em 1975, rejeitou aderir ao Euro como sua moeda. E nisso consiste o globalismo, é a globalização que vai “longe demais” (dirigida pelo marxismo cultural, nas palavras do ministro Ernesto Fraga). Ou ainda, na definição técnica de Filipe Martins (assessor de assuntos internacionais do PSL):

 

O globalismo é a ideologia que preconiza a construção de um aparato burocrático — de alcance global, centralizador e pouco transparente — capaz de controlar, gerir e guiar os fluxos espontâneos da globalização de acordo com certos projetos de poder.

e

O globalismo, por outro lado, é a tentativa de instrumentalização político-ideológica da globalização com a finalidade de promover uma transferência do eixo de poder das nações para um corpo difuso de burocratas cosmopolitas e apátridas, que respondem não às comunidades nacionais, mas a um restrito conjunto de agentes de influência com acesso privilegiado a esses burocratas — o que, no limite, significa a substituição das democracias representativas por um regime tecnocrático e pouco transparente, no qual o poder decisório está concentrado nas mãos de alguns poucos privilegiados.

 

Embora esse seja o formato atual do globalismo, aplicado nas decisões de entidades supranacionais como a ONU, seus braços e a União Europeia, um projeto globalista existe enquanto ideia (embora não certamente com esse nome) desde o Iluminismo: uma governança técnica e iluminada de alguns poucos indivíduos racionais em nível universal. Isso é corolário dos preceitos kantianos de uma razão humana universal, que culmina necessariamente numa Paz Perpetua cosmopolita, como vislumbrava e recomendava o próprio Immanuel Kant. Ao chamarmos isso tudo de globalismo, qual pode ser a reação de uma pessoa de bom senso senão admitir que tal ideologia existe e influencia algumas importantes mentes? Vejamos: nem entramos no mérito se o globalismo é desejável ou não, o nível atual do debate – absurdamente – exige que provemos que ele existe, sendo que a hipótese de negar sua existência tem prazo curtíssimo de vida (quase que em totalidade, devemos passar, muito em breve, para o mesmo que se deu com o Foro de São Paulo, que ficou absolutamente inserido na espiral do silêncio por vários anos, depois passou a “mero clube de debates” e agora, ao menos, tem sua existência admitida e reconhecida).

Para os que ainda estiverem insatisfeitos e não totalmente convencidos que o globalismo existe, ao contrário do que sugerem as elites falantes histéricas, há muita bibliografia acadêmica tratando do fenômeno e que vale a pena mencionar: Carroll QuigleyMichel SchooyansHenry LambNicholas HaggerTed FlynnAlan B. JonesCliff KinkaidGary AllenEdward GriffinWilliam F. JasperJohn FontePascal Bernardin, Ian Bremmer entre outros, prato cheio para os interessados no tema começarem seus estudos (o artigo A Internacional Nacionalista contra o Globalismo, do antropólogo Flavio Gordon, traz outros ótimos insights).

Devemos ver uma guinada no discurso muito em breve, pois a existência do globalismo exatamente como os conservadores mais atentos o descrevem – o desejo de uma governança global dirigida por uma elite – é um fato inegável. Os mesmos que hoje o negam, amanha começarão a dizer, “vejam, existe globalismo, mas não é bem assim…” e outras platitudes inocentes sem qualquer ar de mea culpa, típico dos enfeitiçados por uma superioridade auto-proclamada. É hora de alguns porem as barbas de molho.

 

[1] É graduado em Filosofia e História, mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), professor das redes publica e privada da cidade de São Paulo, coautor de “Saul Alinsky e a Anatomia do Mal”  (Editora Armada, no prelo), tradutor, revisor, editor e palestrante. Escreve regularmente para periódicos de noticias e em www.andreassibarreto.org.

[2] Por oposição a “classe pensante”. A classe falante tem os meios de expressão de suas visões sobre as coisas, mas muitas vezes dirigida por cegueira ideológica e não por genuíno interesse na busca pela verdade, distanciando-a do dever da profissão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Receba o melhor do conteúdo livre!

Seja notificado das nossas principais notícias!

Você também poderá gostar

Durante entrevista à Fox News, Trump fala de acordo com Bolsonaro e diz: “temos 267 bilhões esperando.”

Em sua última entrevista concedida à apresentadora Laura Ingraham, do canal Fox…

Alexandr Dugin, conselheiro de Putin, declara apoio à esquerda no Brasil após vitória de Bolsonaro

Após as eleições brasileiras terminarem com a grande vitória do candidato Jair…

Apreensão do transcendente: uma conversa entre Roger Scruton e Jordan Peterson

Por André Assi Barreto,     Roger Scruton e Jordan Peterson se…

Folha de SP divulga fake news sobre retirada de imagens católicas por Michelle Bolsonaro

O Presidente eleito, Jair Bolsonaro, veio à público mediante redes sociais para…